O município de Presidente Epitácio, localizado às margens do Lago Primavera, lago represado do Rio Paraná, no extremo sudoeste paulista, tem sua história marcada pelo desenvolvimento infraestrutural e logístico do Estado de São Paulo durante o século XX principalmente.

Os registros históricos demonstram que os habitantes dessa região até o século XIX eram indígenas de diferentes etnias mas, principalmente, Coroados e Caiuás. Ainda no século XIX, a região era ainda bastante desconhecida pelas autoridades estaduais e nacionais, era vista, como sugerem os registros históricos, como um “sertão desconhecido”. Entre 1890 e 1900, diversas propostas de realização de obras infraestruturais na região foram pautadas, estudadas e testadas pelo governo paulista.

Eram projetos de estradas de rodagem que por muitas vezes foram postergadas, porém concretizou-se a criação do “caminho boiadeiro”.

No final do século XIX, com a implantação do caminho boiadeiro, apresentou-se um grande fluxo de gado que era proveniente do Estado do Mato Grosso. Dada a importância da localização, em 1902, Domingos Barbosa Martins, o “Gato Preto”, e o Major Cecílio de Lima estabeleceram estrutura para pousos e currais para descanso, sendo esses os primeiros passos para a fundação da Vila Tibiriçá e a fixação de seus primeiros moradores. Em 1908, foram concluídos a estrada boiadeira e o Porto Tibiriçá, nome concedido em homenagem ao governador do Estado de São Paulo Jorge Tibiriçá.

No início do século XX, o pequeno porto de embarcações de passageiros e cargas que, mais tarde, tornou-se o Porto Tibiriçá, passou a ganhar importância no transbordo de cargas de mercadorias, principalmente de Mato Grosso do Sul para São Paulo.

Fonte: SILVA, 2020.

Apesar do porto ter sido uma fonte de fomento e renda, o desenvolvimento da região aconteceria apenas em 1922, data em que a Estrada de Ferro Sorocabana (EFS) inaugurou, no antigo distrito de Presidente Epitácio (na época município de Presidente Venceslau), o trecho ferroviário que deu continuidade à Linha Tronco da Sorocabana, iniciada em 1875. A estrada de ferro ligava o Porto de Santos e percorria o interior paulista, passando por cidades em pleno desenvolvimento social e econômico como Sorocaba, Botucatu, Ourinhos, Presidente Prudente e Assis. Os trens eram, principalmente, utilizados para o transporte de cargas, porém, a linha chegou a transportar passageiros até o final da década de 1990.

O novo trecho permitiu que Presidente Epitácio se tornasse um importante centro logístico, que envolvia o transporte terrestre, fluvial e ferroviário, representando uma forte ponte comercial e estratégica, que chegava ao interior do atual Mato Grosso do Sul. A estrada de ferro foi responsável então, por acelerar a ocupação da região do extremo oeste paulista, com geração de emprego e renda e desenvolvimento

tecnológico, econômico e social. A Sorocabana foi responsável inclusive por financiar o projeto e a obra da atual morfologia urbana do centro de Presidente Epitácio, entroncamento da Avenida Sobrasil e Avenida Presidente Vargas, onde hoje se encontra ainda a antiga estação de trem, como pode-se apreciar no projeto da planta da sede do município na imagem a seguir.

Fonte: Ralph Giesbrecht.

Segundo o site de Ralph Giesbrecht sobre a memória ferroviária paulista, nos anos de 1940 eram realizadas excursões para Foz do Iguaçu em que eram operadas pela Sorocabana no trecho até Presidente Epitácio e ali mesmo seguiam viagem até as Cataratas pelo Rio Paraná; utilizava-se vapores fluviais com transbordo de passageiros no Porto de Presidente Epitácio.

Em 1999, a Linha Tronco da Sorocabana foi concedida pela Rede Ferroviária Federal (RFFSA), como parte da malha paulista. O trecho entre Botucatu e Presidente Epitácio passou a fazer parte da malha sul da Rede. Atualmente a concessão é operada pela concessionária Rumo Logística. A antiga estação de trens de Presidente Epitácio, arquitetura de 1940, se mantém e abriga a Secretaria de Turismo e Cultura.

Outros bens materiais são constantes dessa época ou anteriores, como um forno para queima de madeira e possível produção de carvão, da antiga serraria na Rua Nelsom Weler, 172. Os trilhos da ferrovia ainda estão entre o desenho urbano e atravessam áreas residenciais e comerciais.

Forno de tijolos da antiga serraria e trilhos remanescentes que chegam até o Cais do Porto também datado do início do século XX. O Cais do Porto possui remanescentes de estruturas industriais que fizeram parte da história do município, bens públicos ou concessionados, mas que são fragmentos que interessam aos visitantes e criam senso de pertencimento na população.

Outra obra de grande envergadura no município e que também foi responsável por seu desenvolvimento foi a construção da atual Ponte Hélio Serejo, inaugurada em 1964, sendo atualmente uma das principais conexões viárias entre os estados de Mato Grosso do Sul e São Paulo e umas das pontes mais extensas do país, tendo sido a ponte de maior extensão no país até a construção da Ponte Rio-Niterói (1974).

Com a construção da represa e concomitantemente da UHE Engenheiro Sérgio Motta em Porto Primavera, inaugurada em 1999, o município e o estado passaram então a investir no desenvolvimento do turismo local, frente às novas possibilidades oferecidas pelo lago, para esportes aquáticos e transportes de lazer ligados ao descanso e à pesca.